Temporada 2 · Episódio 07

    Carreira Internacional

    Apresentado por Marcela Sperduti, Maurício DePaula, Alex Fornazari e Julio Mello. Convidados: Alexandre Lemos. Duração: 42 minutos.

    Capa do episódio Carreira Internacional do podcast aFirma

    Como é realmente construir uma carreira internacional? Neste episódio da aFirma, Alexandre Lemos compartilha os desafios que vão muito além da mudança de país: adaptação cultural, liderança global, confiança, gestão de equipes multiculturais e os aprendizados que surgem ao trabalhar em diferentes culturas.

    Transcrição completa do episódio8.444 palavras+

    Olá, eu sou Alex Fornazar e consultor executivo. Olá, sou Julio Gomes, consultor e facilitador. Olá, eu sou Marcelo Esperdute, consultor e comunicadora. Esse aqui é a firma, uma plataforma de conversas, repertórios, muitas histórias, nossos e dos nossos convidados sobre dilemas e tudo aquilo que passa pelo mundo do trabalho, carreira, gestão e comportamento.

    E antes de começar, se você gosta desse tipo de conversa sobre carreira, gestão, mundo do trabalho, segue o canal, comenta, compartilha, aperta o botão do like. E bora lá começar nossa pauta de hoje. Acho que é um assunto desejo de muitos, mas poucos conseguem realizar. Todo mundo sabe que a carreira internacional é o maior objetivo de desejo do mercado corporativo.

    Não é segredo pra ninguém. 9 out de 10 executivos sonham com o crachá global e com o topo do sucesso. Mas a grande verdade é que, embora seja desejada por todos, ele é realizada por poucos. E o motivo é simples. O pedágio de bastidor é altíssimo. Existe um lado duro, de isolamento, de ter que lagar uma posição consolidada de influência local para assumir uma cadeira onde você precisa provar o seu valor do zero em uma cultura que você não domina.

    Só que o bônus compensa o tranco. Quando você aguenta o processo, o ganho em repertório é brutal. Você aprende a liderar na ambiguidade, expande sua visão de negócios e desenvolve uma casca executiva que o mercado nenhum aqui dentro te daria. A reputação não viaja de graça, mas a bagagem que você traz de volta é impagável.

    Para abrir esse balanço real de ônus e bônus, o nosso convidado especial hoje é meu grande amigo, Alexandre Lemos, e agora sócio também. O Ale é um executivo com mais de 30 anos de experiência, trabalhando em empresas líderes globais nas indústrias de bebidas, saúde, cuidados pessoais, cosméticos, como Natura, Johnson & Johnson, Ambev, entre outras.

    Ele tem uma sólida trajetória como diretor geral, diretor executivo e country manager. E o mais legal é que ele resume essa jornada cheia de resultados como uma história feita de lições erros e muita diversão. Ale, seja muito bem-vindo ao firma, cara. Manavília, obrigado, Júlio. Bem-vindo. Bem-vindo. Obrigado pelo convite.

    E realmente é isso, né? Trajetória internacional para mim foi algo muito macante, eu gostei muito, mas como você comentou, né? Como tudo na vida tem um ônus e tem um bônus e que bacana poder estar aqui compartilhando e falar um pouco disso porque acho que ajuda a desmistificar um pouco, né? Mas ao mesmo tempo trazer o lado bacana na vida é isso, né?

    Tem um trade-off, coisas boas e coisas que a gente tem que estar se adaptando. E é sobre isso que a gente vai falar hoje, né? Dos ônus e do bônus, dos trade-offs. E ali, conta um pouco para a gente a nossa jornada, né? A turma gosta de história. Como foi a sua jornada, Le? Então, Júlio, eu vivi essa minha experiência internacional já como um executivo sênior, né?

    Eu já estava com 40 anos quando eu fui convidado para assumir a operação da natura no Chile com dois filhos, um filho de 5 ou 7. Pequenos. Pequenos, né? Então, tive essa oportunidade já num momento diferente da tua carreira, né? Eu recebi o Júlio. Quando o Júlio voltou dos Estados Unidos, eu não dei da expatriação. A expatriação era a chefe do Júlio.

    A mudança dele se é o mais caro. Vixi, olha aqui, ó. O companheiro nosso que tinha lá, que tinha dois filhos e a esposa. Então, a mudança dele se é o mais caro. Nossa, Júlio, como você é caro? Não se trata de trazer bagagem. Não me trouxe bagagem, gente. Por favor, não se enge. Não me suprie, enge. Esse assunto é outro podcast, aí vale um.

    Vale um, só para falar disso. Mas o fato de ter ido com essa maturidade, acho que teve uma coisa boa, né? Onde você olha a conta, a perspectiva, mais com uma complexidade familiar diferente. E vai piorando, né? Porque os filhos foram crescendo, foram ganhando mais voz, mais autonomia. As minhas mudanças foram ficando mais complexas ao longo do tempo.

    Eu esquecei de falar português ou falam português? Falam portugueses ou avançadas. Portugueses e avançadas. Avançou, né? E esse desafio é interessante, né, Nemes? Porque também, no meu caso, eu fui mais jovem, né? Fui numa cadeira gerencial. Para mim, o primeiro movimento foi sair de São Paulo. Então, eu brinco, que foi a primeira movimentação internacional, porque eu fui para um lugar aonde eu não conhecia nada.

    Eu nunca tinha ido, que era o Nordeste do Brasil, Recife. E foi o melhor momento da minha vida, em uma época que, para mim, foi muito importante, né, para consolidar não só eu, Júlio, como eu, o profissional. E essa vivência, lá, que me catapultou e abriu essa oportunidade para essa carreira internacional. Um pouco diferente de você, lembram-se, eu fui sozinho.

    E foi tão difícil quanto. E vocês, meus amigos? Que é uma perspectiva que vocês têm sobre isso? Eu nunca tive uma carreira internacional, mas sempre aspirei ter uma carreira internacional. Trabalhei, basicamente, 90% das empresas que eu trabalhei eram multinacionais. E sempre tive essa aspiração, nunca realizei. Talvez eu não tenha buscado com tanta energia, mas nunca rolou para mim.

    Mas trabalhei em times globais. E muitos amigos, como você, Júlio, fizeram carreira internacional. Tem muita gente que eu conheço. E eu sempre tive essa curiosidade de quem nunca fez, de quem... De repente, pode rolar também, né? É, eu nunca... A verdade é essa, né? É, também é uma bairra oportunidade para você trazer algumas perguntas ao longo do episódio de hoje, né?

    Porque talvez as suas dúvidas, suas perguntas, sejam as dúvidas da nossa audiência. E nós temos uma pessoa aqui com uma perspectiva que vai enriquecer demais. É aqui, está do outro lado e veio para cá, né? Omar, como que foi essa experiência toda sua? Eu fui com 19 anos para estudar. Então, eu não fui em nenhuma cadeira de nada.

    Tinha só feito estágio aqui. Enfim, tinha muitas questões abertas do que ia ser minha carreira. Primeiro fui para a França, estudava fotografia, um ano, não sei o quê, Paris, não. Fui para Roma. E daí, as coisas começaram a se desenhar. Nunca fui achando que eu ia ficar para trabalhar, mas as coisas foram acontecendo. Acho que a gente estava falando nos bastidores.

    A Brasilidade foi um ponto muito forte, que eu mantive algumas coisas que eu percebo que me identificam como brasileira fora. Mas quando eu estou aqui, eu me sinto muito gringa. Olha que interessante. E a coisa muito louca que, inclusive, a firma tem me enriquecido muito. Eu agradeço a vocês e a todos os convidados que vieram aqui.

    É que eu percebo que talvez... E não estou me dando um tiro no pé falando isso, mas estou assumindo uma coisa que eu estou correndo atrás. O mercado brasileiro pode ter muitas coisas parecidas. Empresas globais têm muitas coisas parecidas. Leitura de cultura, leitura de ambiente é sempre necessário. Mas eu percebo que eu tenho tanto a aprender.

    O mercado brasileiro é um mercado muito agressivo, no bom sentido e no mau sentido. E tem tanta, tanta, tanta riqueza. Então eu estou só absorvendo isso. Mas eu percebo que fazer minha carreira na Europa sempre me trouxe essa coisa de assim, ok, como é que eu posso agregar com o meu viás brasileiro, mas eu estou mantendo essa coisa aqui.

    Eu continuo aprendendo muito, e não sei se eu quero voltar 100% ou ficar 100%. Eu gosto muito desse lugar global da minha alma que eu estou sentindo. Eu vou pegar uma caruna no seu cometa, porque, cara, é inspirador, gente. Lembrem-se o quanto a Brasileidade te ajudou e o quanto ela te atrapalhou. Bom, Júlio, eu tive o privilégio de...

    Eu estava numa empresa global mais de origem brasileira. Eu fui espatriado pela Natura. E acho que tem poucas empresas que falam tanto de Brasileidade. Quanto à Natura, com certeza. Quanto à Natura e o Brasil do bem. O Brasil empreendedor, o Brasil dos seus ativos, da riqueza, da Amazônia, do empreendedorismo, das mais de um milhão de consultores que tem na Natura.

    De valorizar a Brasileidade. De valorizar a Brasileidade com um atributo de marketing, inclusive, um dos atributos importantes da marca como um todo. Foi muito bacana, porque eu me lembro até com orgulho, que quando eu fui assumir a operação do Chile, quando a gente olhava as operações internacionais, as operações fora do Brasil pesavam 7% só do faturamento da Natura.

    Ou seja, não era nada. Então a gente não tinha nem voz ativa dentro da estrutura corporativa para pedir alguma coisa para o país, para falar alguma coisa específica. E eu saí da empresa ano passado. O negócio, basicamente, era a metade América Latina, a metade Brasil. Olha só. Então, foi um jornal de muito crescimento, muita transformação em 14, 15 anos.

    E levar o nome Natura para fora foi muito bacana. Tem um lado assim, Natura é uma empresa simpática, que tem como... Sempre aberta. Não, aberta com atributos supervalorizados pelo mercado, atributos de sustentabilidade. E a gente pegou um trend muito positivo do Brasil, num momento de crescimento, num momento de valorização da cultura, de características, mas com desafios também.

    Porque não era fácil chegar para um chileno, um colombiano, um mexicano, falar de Tucumã. De Tucumã para Sul. Tucumã para mim era um maia. É, falar algumas coisas dos ativos da Natura, que tem as vezes nomes muito característicos. Mas foi muito bacana. Eu acho que o Brasil é um eixo fundamental aqui da América Latina e viver essa experiência que eu vivi de...

    Esportar uma companhia brasileira de sucesso para outros países, para mim foi muito bacana. E com as pessoas, a Brasilidade ajudava, ajudou, e também não contribuiu. Você tem alguma vivência disso? Porque eu vivi coisas... Daqui a pouco eu conto a minha história, mas eu vivi coisas muito interessantes. Dias de luta, dias de glória, no caso.

    Vou contar os outros contatos aí. Tem coisas que eu não posso contar, mas vamos falar sobre aquilo que a gente pode falar. Então... Mas o bacana aí, Juli, a Brasilidade, acho que de novo, o lado espontâneo da gente, o lado caloroso brasileiro, o lado empático da gente, é sempre muito bem-vindo, acho que em todas as culturas.

    Eu particularmente tinha que tomar cuidado com o tema. Às vezes eu sou demais, muito informal, às vezes eu sou muito brincalhão. Então, assim, tem horas que cai bem, tem horas que eu tinha que me policiar, porque isso às vezes não encaixa muito bem em algum momento. Então, isso tem que estar atento. E tem coisas pitorescas também, em questão do...

    Eu saí daqui achando que eu sabia falar espanhol. E foi para o Chile, que é talvez o espanhol mais rápido, com mais dialéticas, mais nuances, gírias da América Latina. A gente acha que fala espanhol, eu lembro que eu fui fazer, já para trazer um episódio aí, Bittoresco, a gente fazia eventos na natureza para muitas pessoas.

    Eventos para as 500, 400, 1000 pessoas. Então, tinha muitas pessoas. Eu lembro que a primeira vez que eu fazia um brinde para encerrar o evento, eu perguntei se todo mundo estava com as taças. E taça em espanhol é xícara. Eu lembro que eu olhei as mulheres que estavam lá na maioria das pessoas, não eram só mulheres, mas as consultoras da natureza começaram a galhar de hip e fazendo um brinde como se estivesse segurando a xica.

    Te ajudaram a quebrar o clima, foi legal. Me ajudaram a quebrar o clima. Mas isso acho que é bacana, porque a escriterância também tem muita questão de você mostrar as suas fragilidades também. Então, eu me desamei também. Então, eu cheguei aqui achando que eu era senior, quando você cai em outra realidade, você vê que tem que vestir um pouco a famosa sandália da humildade e repensar algumas coisas.

    Grande banho de humildade sempre, né? Porque eu erro até hoje, eu invento palavras em italiano até hoje. A meia chefe ela vai assim, vamos usar a parte de hoje o dicionário da Marcella, porque tem coisas que fazem mais sentido do jeito que a Marcella está falando. Aí você encontra pessoas que empatizam com o lugar também e um lugar de muito respeito, né gente?

    Porque ela vai assim, a pessoa já está em outro continente, liderando um monte de italiano, te colocar num lugar desconfortável, putz. E isso é uma coisa que eu aprendi também a fazer quando chegavam também pessoas de, né, que estavam lá patinando, não conseguiam. Como é que eu posso fazer essa pessoa se sentir num lugar confortável, porque ela já está completamente num lugar desconfortável?

    Como é que você pode ser um anfitriano? Exato, porque foram anfitriões muito bons comigo. As coisas começaram a acontecer comigo, eu usou exemplo da Xícara, eu lembrei da vez que fui se patradorar para o Parcanças, pessoal. Imagina, orcâncias, com essa carinha de latino. Todos os lugares que eu chegava, me apresentava aí tudo bem como você chama, Júlio.

    I'm sorry, what? Júlio. What? Júlio, porra! Ah, Júlio, nice to meet you! É! E aí, é engraçado disso, é que a partir do momento em eu fazia questão, eu falei, cara, você tem alguma amiga que chama Júlio? Você não tem nenhuma amiga que chama Júlio? Então, just put the fucking hell, Edna, de Júlio, Júlio. Falei, é isso aí, caralho.

    Eu falo de novo para aprender a falar direitinho meu nome, né? Eu estou contando essa história, porque a partir do momento que eu comecei, eu baixei a minha guarda, me senti mais confortável e com menos medo de errar, as coisas começaram a acontecer. Demorou três meses para eu conseguir fazer amizade de verdade com as pessoas que trabalhavam comigo.

    Por quê? Pestão da cultura, né? Chegava às oito da manhã, saía às oito da noite. E as caras achavam, depois que eu fiz amizade com eles, você falou, meu, a gente pensava, tinha certeza que isso era o cara mais improdutivo da escritória. Por causa da... Mas isso dá por que? Porque eu cuidava do Amar de Internacional. Então, oito horas, era oito horas da manhã, no Japão, nove horas, era nove horas na China, não lembro mais os time zones aí.

    Então, eu tinha que ficar mais tarde para cobrir esses países, para fazer uma reunião e na visão deles que não conhecia o contexto, então eles me julgaram. E quando eu contei isso, eles ficaram... Eu achei isso tão bacana, foi aí que eu te viro melhores amigos, porque eles ficaram tão envergonhado, tão envergonhado, que depois desse dia, cara, tudo aí me fudir, porque tudo, vamos tomar cerveja, vamos, vamos jogar golf, vamos andar de bicicleta.

    E aí, a brasilidade imperou. Então, nesse ponto, a brasilidade foi excelente. E um ponto negativo da brasilidade, e essa história foi interessante, porque em reunião, existe um script, mas o ritual é... Você só marca uma reunião lá com os americanos, você não responde a pergunta por e-mail, você responde por e-mail e você não existe a reunião.

    Eu acho que eu amo essa regra, cara. É, a gente deveria adotar mais. A Itália funciona mais Brasil, assim, quanto mais se reunião, melhor. E aí, para mim, era precisava da reunião para ver que todo mundo estava alinhado, para ter certeza. Então, a galera ficava extremamente incomodada com o número... Eu era conhecido como cara da reunião.

    E aí, fui usado como exemplo do que não fazer, e depois, obviamente, de um monte de feedback, aceitei. Eu falei, puto, você tem razão, desculpa. E aí, de novo, destravou um outro ponto. Sabe uma dúvida que eu tenho de folha de fora, assim? Quando a gente está construindo uma carreira, independente de lugar, você tem, obviamente, a rede de contatos que você constrói, e a experiência do lugar, do local.

    Quando você vira essa chave, vai para fora. Você não tem uma rede de contato, que às vezes, a sua experiência local não é tão grande assim, no país que você está indo. Como é que funciona essa virada de chave para vocês? Eu tive... Aí eu posso dizer privilégio, eu cheguei como gerente geral no mundo da operação. Então, você acaba tendo...

    E não por imposição, você acaba tendo uma conexão com as pessoas de maneira natural. Você está liderando, você tem que meter... Tem que acontecer, né? Você tem que acontecer, né? O peso do craché ajuda já, abertura. Ajuda, mas é quase uma obrigação minha também. Eu preciso me inserir, eu preciso entender o que está acontecendo.

    Como líder também. Entender quem são as pessoas, quem são os times, em que ambiente estou inserido, quem é a concorrência, conectar nas distintas, sei lá, entidades de classe, câmaras cosméticas, então isso ajuda. Mas não é trivial, porque eu sempre comento também que a minha espatriação não foi só minha, foi a minha e da família também.

    Então, eu tinha que garantir que o meu Olicés, que a minha família também estivesse conectado com o país, estivesse pessoas para interagir. Principalmente a minha esposa, porque assim, eu me conectava com o trabalho, tinha minha ria de relacionamento ali, molecada e apocolejo. Então, assim, a preocupação com família é outra coisa muito importante.

    O convite para quem, de vez em vez de experiência, assim, é primeiro, nunca faça o movimento dele sentar 100% consciente de que isso é o melhor para a família. E muito bem conversado antes, né? Se a balança é desequilibrada, e você não tem uma parceira ou parceira para estar te acompanhando nisso, eu já vi experiências frustradas, né?

    É, quase também já vi. E a segunda é a tua integração não é sua. E a sua e da tua família também. Então, isso é muito importante. Legal. O meu ponto, na verdade, de dar rede de contato, obviamente, dentro da empresa, você chega lá com o peso do crachá, numa posição de liderança, você automaticamente cria rede de contato dentro da empresa.

    Mas e a rede fora da empresa? Eu vou colocar justamente, porque a minha vivência é completamente diferente, mas completamente diferente. Eu acho que essa foi uma grande sorte de dar dois estudos lá. Eu só tinha amigo italiano. Fui ficar muito próxima dos meus professores. Comecei a enfeira de setor. Eu falei assim, meu Deus, da onde que eu vou começar?

    O que que eu faço aqui, né? Não tem ninguém que me indique, eu não sei, meus professores. Gente, eu fui aprendendo e H-O-Gar. E não sei o quê, eu falei para vocês que eu não sou a boa do óleo de peroba na cara. Mas lá eu falei, eu preciso fazer alguma coisa, porque se eu não ganhar dinheiro, meu pai vai me mandar de volta.

    No caso, porque daí é... Vai, Marcela, vai sozinha, né? E isso foi muito importante. E todas as vezes que as empresas vinham fazer aqueles times que para você aprender a entrar business case, eu fazia todos. Quase um burnout de business case para tentarem os túplos. Ela disse, não, a gente pega a luz e para fazer estágio.

    Foi assim que eu entrei na team. Legal. É, e no meu caso, assim, eu estava numa posição de liderança e a empresa acabava empurrando muito isso, porque como era uma operação não relativamente nova, porque a natureza estava há algum tempo nos países que eu assumi, né? Mas não era uma marca muito conhecida. Então, a gente tinha três pilares para poder estar abraçando, fazer a marca conhecida.

    Uma era a marca natureca, era super forte. Outra relação com a rede de consultoras, que tinha para cada país 100 mil, 400 mil, 500 mil pessoas vendendo. E o terceiro era parte de reputação corporativa e comportamento empresarial. Então, eu acabei me metendo muito nos gremios, associações, a Câmara Cosmética. E uma coisa que é muito característica do Brasil na América Latina, se acaba criando um network com brasileiros.

    É, acho que o primeiro established que você faz, né? Tem muitos líderes de organizações na América Latina que são brasileiros, então tem bastante pessoas de copando o cargo de liderança, então se acaba fazendo isso. As filhas acabam indo para colégios patriarcos também, então, tem um monte de brasileiros também. Então, o primeiro contato acaba sendo com essa rede brasileira.

    E de novo, trazendo para esse lado da vida familiar, do equilíbrio, quando você está espatriado, você é obrigado a fazer isso. Aqui as coisas vêm naturalmente. Então, eu sempre me forceia a estar me conectando com pessoas que não que me geravam valor, mas que eu me senti identificado, com pessoas com valores parecidos, afinidades, afinidade.

    Então, eu não fazia um infinito de amigos, mas eu procurava me conectar com pessoas e tem o privilégio de pessoas que eu conheci, no Chile, na Colômbia, no México, são amigos da vida. Isso vale também aqui também, porque o fato de você estar espatriado, eu escutei uma frase de um grande amigo, que é o Marcos Henrique, que assim, a amizade tem que regar, regar com frequência.

    Qualquer relacionamento. Qualquer relacionamento, né? Mas o fato de estar longe, então, eu vinha para cá, me conectava com família e com amigos, e lá fora também, quando eu estava, era importante fazer isso. E personalizando esse papo, trazendo para a vivência, Alex, na minha jornada, fui duas vezes espatriado, mas óbvio, a segunda já estava fluente no espatriatriz.

    Vamos colocar essa forma mais... Espatriatriz? É, é, porque... Ficou bom. Tem a visão do glamour, e quando você faz merda, quando você erra, você não tem uma rede de acolhimento, e isso, para mim, foi muito duro, cara, porque no começo você erra pra caralho. Vou soltar a pergunta aqui. Fala uma história de uma merda. Eu já sabia, levantei a bola, não tinha muito...

    Ele não ia ficar, né? Ele não ia te deixar escapar dessa. Eu vou contar a história, vou contar o fato junto com a história. Tem várias, pessoal. Eu tinha que fazer um episódio da firma só de histórias. Acho que primeiro, então, nessa jornada, no começo, no meu caso, eu estava sozinho, solitário. Eu conhecia o Mike Charrette, que era meu chefe, que foi o cara aqui, construindo a história de onde eu parei.

    Tava em Recife, ele foi visitar o Amar, tinha comprado o bom preço, e ele viu o trabalho, meu trabalho da Make-Up. Então, a minha espatriação não foi mérito só o meu. Foi o mérito de toda a minha equipe, não estou falando isso aqui como motivacional não. Porque eu tinha as ideias, mas eu não executava minhas ideias, e era um cara super criativo.

    Eu colocava o boneco de cotonete, boneco de olhinho, dentro da loja, para fazer um retail payment. E a gente criava muita coisa fora da caixa para ajudar a vender e comunicar as marcas no ponto de venda. E ele viu e ele gostou muito dessa pegada. E um outro lado era pegada analítica. Então, tinha criatividade e a parte analítica.

    Eu falei, cara, esse cara tem potencial para trabalhar conosco. Era o Zevis Sente na época, ele estava atrás de alguns nomes, todos os países mandam uma recomendação, eles mandaram a minha defici... Era ficando dez pessoas, e eu consegui passar. Aí, chegando lá, a solidão. E isso, cara, se não arruma do dia para a noite, às vezes você tem um amigo ou outro.

    Só que eu estava no meu small view, galera. É a middle of fucking nowhere. Tinha as cidadizinhas, cara, de quinhentos e pessoas na placa, quinhentos e pessoas. Falei, caramba, será que eles contaram o cachorro, o ravaquinho? Então, eu estava no meio do nada. Então, você erra ou você precisa de algum apoio? Não tem. Só que isso, por outro lado, se canaliza, né?

    Então, eu chegava no restaurante 9 horas da noite, está falando o time, né? Esses caras estavam fechando, olhavam para mim com ódio. Até eu aprender que os caras já estavam seis, sete horas da tarde. Aí, eu comecei a ir seis, sete horas, depois do trabalho, comecei a sentar no balcão. Aí, eu começava a trocar ideia com a galera do lado.

    E era difícil porque era latino. Então, eu sofri muito preconceito. Então, os caras começavam a conversar, meu. E é duro, gente. Virava as costas, assim, sujomente. Chegou a nesse nível para baixo. E aí, eu falei, não, cara, nem fodeio, né? Então, eu estou com o soltar, porque eu estava com um psicólogo. Porque se eu entrasse na depressão, não precisava, eu estava realizando um sonho de carreira, um sonho da minha vida.

    Desde os sete anos, eu sonhei com isso. Bom, o ponto da Brasilidade aqui, que eu acho que é um ponto que ajuda, no começo, a gente não pode se tornar refém dela, é que obviamente, eu fui com o caminho diferente, fiquei amigo dos americanos. Estados Unidos, isó. Estados Unidos, primeiro. E depois, eu fui, é conectando com os brasileiros.

    Teia brasileiro. Brasileiro está tudo que é o lugar, teia brasileiro lá, né? E aí, a gente tem que tomar cuidado de se tornar refém da comunidade brasileira. A panelinha. Porque, cara, eu vejo muito, eu tenho vários amigos, morando lá espatriados, amigos já ficaram, e que vive esse contexto muito intensamente. E não vive quase nada com o país.

    Então, não vive a cultura do país. Não estou julgando, mas é uma grande oportunidade, você já está morando fora do outro país, de fazer uma imersão. Pode ser que você não se identifique ou não, mas, cara, tem um monte de coisa ali para explorar, desde o convivência, até troca de culturas. Tem um monte de coisa bacana. Então, Alex, para fechar a história toda, essa jornada, e a história ruim foi essa, sabe onde eu encontrei o meu acolhimento?

    No restaurante mexicano. Então, eu chegava lá, 7, 8 horas, os caras já me chamavam de Rúlio, já tinha aceitado que o meu nome era Rúlio, e, cara, trocava ideia de futebol, trocava ideia da vida, então aquilo ali era meu conforto, sabe, cara, nesses três primeiros meses, até me estabelecer lá. Foi duro, mas ao menos o tempo foi legal, porque, cara, eu conheci, nos Estados Unidos, uma cultura mexicana, muito bacana na galera, que até hoje, de vez em quando, ela escreve, e de lá fui conhecendo mais pessoas, mais americanas, então eu queria uma rede muito grande, que me ajudou demais, ao longo dessa jornada.

    Boa. Eu fui um pouco mais dura com isso, e eu sou um pouco mais cri-cri, com essa coisa, cri-cri é muito antigo, né, mas tudo bem, vamos lá. Não, dá pausar. Dá pausar, cara, vamos lá. Bom, eu intolerava que pronunciei meu nome errado, eu faço a pessoa pronunciar até ela pegar, e olha que meu nome é difícil de pronunciar, para algumas línguas, hein.

    E a primeira coisa que eu sempre fiz, é como se pronuncia seu nome, eu tenho pavor, cara, a gente consegue para a Lua, você acha que não consegue pronunciar o nome de alguém direito? Número dois, melhor comunicar do que ficar paralisado, falando, oh meu Deus, eu preciso melhorar, preciso fazer perfeito. Eu vi tantos colegas, se paralisarem, que eu puxamos para o lado para conversar, eu falo assim, você está se comunicando super bem, você está passando a mensagem, entrega o resultado.

    Antes feito que perfeito. Exato, que aqui a gente usa bastante esse lema, que eu acho muito importante, porque senão também caia naquele lugar de, oh meu Deus, eu estou aqui, daí o que o Julio falou é muito verdade, é oportunidade, vai ter momento que você vai falar assim, que que eu estou fazendo aqui, onde eu fui amarrar meu burro, na verdade, que bom que eu amarrei meu burro aqui, mas, de novo, nome errado, o Julio não dá.

    O Mike, na época, eu falei, cara, você tem que falar para todo mundo como fala seu nome. É obviamente que eu aceitava, mas eu não processava, sabe? Então, eu toda hora, ia conversar com as meninas, qual é o seu nome? Era sempre a minha história, quase eu já deixava gravado. Aos poucos, você vê que isso faz parte da sua identidade, da sua cultura.

    Então, você não pode abrir mão disso. Eu tinha que defender a minha brasilidade voltando para a questão. Lembro, você acha que espatriação é para todo mundo? Ou não? Qual que é a sua perspectiva sobre essa carreira? Que não espatriação, só mais de carreira internacional. Vamos colocar sobre essa ótica. Perguntei aí de um milhão.

    Pela minha experiência, tá, Julio? Acho que não é para todo mundo. Acho que primeiro é para quem quer. O mundo mudou muito, nesses últimos anos. Então, já não tem mais fronteiras entre países, quanto mais a questão corporativa. Mas acho que a primeira coisa, assim, tem que realmente querer, e não é para poucos, e tem que fazer um análise, um análise bem profunda, e bem expandida.

    Eu olhando vários horizontes, para quem tem família, olhar o tema família, porque tem um ditado em Caipiresa, eu sou de interior de São Paulo, um ditado em Caipiresa. Que é mais ou menos assim, as pingas que eu tomo, todo mundo vê. Os tombos que eu levo, ninguém vê. Então, eu ganhei muita coisa, minha família também. Eu vejo meus filhos cidadãos, cidadãos do mundo, cidadãos não, cidadãos do mundo, bem articulados, falando três idiomas.

    Mas foi sofrido. Eu lembro o primeiro dia de aula de minha filha, ela foi tirar uma foto para o mural da escola, ela estava com uma cara de bichinho, medo assim, sabe? Petraída. E a palavra realmente era assim, era medo, né? 7 anos, uma escola, conheci ninguém, outro idioma, outra turminha, né, Kali? Então, não foi fácil.

    Também perdi casamento, festa, batizado, um monte de coisa aqui, mas ganhei muitas coisas. Então, nesse trade-off, quando a balança é mais positiva, porque você gera de valor, para você e para a sua família, do que você pede, enquanto ela é positiva, eu estava lendo a pena. Parte do meu movimento de voltar para cá, foi quando eu comecei a ver que a balança estava desequilibrando.

    Eu acho que você tem o autoconhecimento também. É importante, gente. É o fundamental nesses movimentos. Então, assim, vai ser duro, vai ser difícil fazer um movimento como esse, mas eu, junto com os meus valores, minha estrutura, estamos dispostos a fazer. E está sempre discutindo, analisando, avaliando, porque não é fácil.

    Eu também acho que não é para todo mundo, mas é para todo mundo o que quer. Querer de verdade. Colocar isso. Eu coloquei essa meta com sete anos de idade. Direto ou indiretamente, fui semiando e buscando as oportunidades, para eu conseguir chegar lá. E eu, de verdade, achava que eu não ia conseguir. Mas todo mundo tem aspiração, porque é muito interessante você ter vivências internacionais.

    E hoje, uma carreira internacional, ela está mais fácil. Você cruzar as fronteiras, porque antigamente era um pouco mais burocrático. Tanto que os programas de espatriação me enguaram. Tem um exemplo de uma empresa multinacional, que a diretora de trade global estava em São Paulo. Remota. Não foi espatriada, mas era do time global.

    E cada vez mais vai acontecer isso, porque é um custo muito alto para as empresas também, olhando para o outro lado. Por isso que não é para todo mundo também, e é um processo seletivo pesado e longo. Porque tem um outro ponto. Lembremos, se eu invisto tudo isso, o cara volta e vai embora. Mas faz parte do jogo? Que garantia que você tem?

    E tem o outro lado também. O que você gerou de aluno nesse período todo, e você teve também fora do seu país? Eu tenho uma dúvida também, outra dúvida aqui. A gente depende muito do tempo que você fica como espatriado, ou trabalhando como a Marcela, que não foi espatriada, que começou a carreira dela lá fora. Vocês acham que vocês vão ser sempre os eternos outsiders?

    Ou tem um momento que vira a chave, e que você já está incorporado na cultura local, no trabalho, no escritório, na empresa que foi? Eu tenho um pouco de quadro pelas personalidades. Vocês sabem muito bem que eu tenho uma questão, que eu falei, gente, é uma sensação muito louca você se sentir por muitas coisas gringo no teu próprio país.

    Cada vez menos, porque eu tenho buscado muito, realmente, diminuir esse gap que tem. Mas ele vai, são 17 anos de gap. Não tem jeito de você querer correr atrás passando só quatro meses por ano aqui. Mas estou tentando ver isso sempre como oportunidade, não como frustração. Eu não sei se algum dia eu vou me sentir muito mais de lá, muito mais de cá.

    Eu acho que eu estou, e eu gosto muito de ser brasileira, gosto muito de ter feito o que eu fiz, e acho que eu vou tentar sempre buscar meu ponto de força nessa ponte que eu faço entre os mundos. Você se sente mais outsidedo no Brasil do que lá fora, e você está querendo dizer. Ela está tentando agora reconstruir isso.

    É uma coisa, as minhas quatro personalidades juntas, elas, gente, é que sim, entende que não, entende que eu estou mais inspirado. É isso. O Leves, e para você que construiu quatro, cinco casas, casas no sentido home, você mudou e viveu, você construiu a família brasileira, você construiu a família mexicana, a chilena colombiana, você sentia outsider, e construiu em cima da perguntador do Alex.

    No final das contas, sim, por mais que você se adapte ao país, você tem seus traços culturais, e eu adorei morar nos três países que eu morei. As pessoas me perguntam ali, dos países que morou, qual que você adorou mais. Eu falei, eu gostei dos três, porque eu sempre conectei com um lado bom, minha natureza, porque está sempre com um lado bom das coisas, mas assim, sempre com essa visão de, assim, eu sou um estrangeiro, me adaptando nas coisas que eram necessárias, mas sempre com essa visão de que eu era um outsider.

    E o que você fazia para conectar? Então eu sou outsider, mas o que você fazia para conectar seus amigos, para conectar as pessoas, para não ser o outsider toda hora? Não vale com o brasileiro. Não vale para não. Eu falei muito a minha esposa, a gente tem uma conexão muito forte com relação a sua parceria, porque no final do dia, é um partnership que você acaba fazendo para poder enfrentar tudo isso.

    A primeira conexão era com ela, assim, a gente explorava os países que a gente... Eu conheci o Chile, literalmente, de norte a sul, conheci um pouco menos a Colônia, porque a Colônia eu peguei na pandemia, foi bem complicado, conheci muito bem o México também, então, para me conectar, eu me conectava com... eu brinquei, a gente conectava com sabores e colores.

    Sabores e colores. Sabores e colores, porque eu gosto muito de gastronomia, gosto muito de viajar, então aprendi muito do vinho chileno, do café colombiano, da tequila... Só coisa boa, né? Da tequila mexicana, então... Não, porque assim, se você vai com espatriados só para trabalhar, juntar dinheiro, não vale a pena, gente.

    Não vale a pena. Nada vale a pena, sua senhora. Tem que se divertir, vou dizer com propriedade, que eu me diverti com força. Não vale a pena. Acelerei, acelerei, porque... senão não vale a pena. Eu ia adicionar curiosidade genuína, porque isso que você está falando é ter curiosidade mesmo sobre o país que você está... E fazer imersão, né?

    Por isso que eu falo que as panelinhas elas são muito perigosas. Acho que depois de um certo momento que você já viveu e você está mais integrado, isso é muito importante. Agora que eu mudei para Portugal, tem um movimento de espatriados muito grande, mas os Estados Unidos ficam com os Estados Unidos, eu percebo que tem muitas panelas e é muito difícil entrar...

    Não é normal, é o nosso mundo. A primeira lugar que você vai correr, né? Mas eu não sei se essa é uma coisa que está acontecendo mais, que tem menos integração. Isso é uma pena, né? Porque, na verdade, daí você vai para núcleos que só fazem coisas ligadas à música. Não tem esse mix. Mas sabe qual minha percepção? Tem que acreditar, né?

    From the cradle to the grave. É desde a escolinha. Porque meus filhos estavam em colégio americano, era assim, era a rodinha dos platinos e brasileiros, a rodinha dos americanos, a rodinha dos asiáticos, né? Então, acho que tem... É muito complicado. Pegando o que você desenvolveu e trazendo para a pergunta ali também, mas o que que te faz para promover a integração, para quebrar essa ela, para você não ser visto como autoside?

    Curiosidade. Eu fazia churrasco. E aí eu virei o churrasqueiro da galera. Sabe outra coisa que eu fazia? Eu chamava todo mundo, não de uma vez, teve uma vez que eu chamei todo mundo para minha casa e foi o Apocalipse, igualzinho o filme americano, que eu não posso... Essa história nunca contei para ninguém, mas dá ponto de eu ter sido chutado no meu próprio quarto e meu amigo no Harley-Hollah lá, eu falei, meu, vamos dormir, cara, quatro horas da manhã, o cara ignorou, tinha que dormir na sala, você entendeu? Nesse nível.

    Nível filme T-Nade era americano, cara, né? Nesse nível foi. Nível Carnaval. Entrasco Carnaval. Eu já fui para o final, mas uma coisa legal que eu fazia, quando eu chamava em casa, eu recebia como eu recebi os meus amigos aqui, só que essa é uma particularidade, é que, cara, o termo-ostato sempre estava ali nos 23 e de 4, a galera chegava ecapada e com vergonha de falar, tá quente pra caralho, Julio, né?

    Aí tirava o primeiro ler, tirava o segundo, e aí ficava com a camiseta branca, que é quase o pijama, né? Da galera americana usa como Underwire, né? Porque o cara estava, e as moças não conseguiam, a mulherada não tirava tudo, né? Até o dia que eu falava, porra, Julio, tem uma coisa pra te falar. Pelo amor de Deus, bicho, você quer assar a gente aqui dentro dessa casa?

    Ninguém quer vir mais, porque vai passar calor, eu falei, pô, desculpa aí, eu lembro. Eu falei, cara, 64 Fahrenheit. Tinha que pôr o termo-ostato no 64 pra galera... Que é quanto, em Celsius? Ah, vai tomar no couro, não faz a conta não, cara. Não é relevante. É muito louco, porque daí, cara... Puta, é cerveja. Cara, tava nos Estados Unidos, era impactado, hambúrguer todo dia.

    Six pack, eu virei o Homer Simpson, bicho do lado do pessoal. Eu saí de 70 e poucos quilos que eu tenho hoje, voltei com 90. Foda, cara. Eu testei muito, eu tava numa fila, eu fui fazer uma integração no alco... Quando eu entrei na Johnson & Johnson, eu fui chefe do Julio. Tava numa fila, bandejão, peguei uma hambúrguer, eu falei, nossa, que hambúrguer gigante.

    A menina que tava do lado, o Julio comia dois desses. Foi a palavra para ela, para mim. Cara, foi ali que eu perdi a linha mesmo. Porque, cara, é tudo novo, tudo legal. Ainda bem que não era do doce, cara. Mas na culinária, aquelas coisas do barbecue, cheguei a viajar nos Estados Unidos para ir atrás do melhor barbecue.

    E enxou para caramba, cara. Enxou do YouTube. Sabe a coisa que você tem acesso? Isso que é bacana, né? Antes da gente botar o body na sala, só para a gente trazer para a terra do mundo dentro da corporação, né? Aqui a gente tá falando como se integrar fora para poder também conseguir sobreviver dentro. Uma coisa que eu achava que...

    Acho que depende também da cultura da empresa que a gente tá. A questão de muitas vezes você ser diferente, você ser o outsider, você traz um recorte de diversidade muito interessante. E essa é uma coisa que eu sempre tentava trazer, como apesar de ser metade italiana, mãe italiana e tudo mais, então nunca tive problema com documentação, que é um grande entrave, como a gente tava falando, um grande obstáculo.

    Sempre fui uma pessoa que dentro falava, não, mas não acho que é desse jeito, com as lideranças muito mais homens, brancos, cis, etc., muito mais velhos. Mas, não, não acho que é desse jeito. Ou então trazer aquela visão que muitas vezes, a gente, tendo esse contato com o Brasil, acho que sempre foi uma coisa muito boa.

    O Brasil se fala muito sobre certos temas, que a gente acha que lá se fala na Europa, mas na verdade o tema tá muito mais atrasado. Às vezes são não temas, mas eu tinha brasileiro, no meu time, eu tinha outros latinos, no meu time, tinha asiático no meu time. E acho que essa experiência me ajudou muito a entender como o nosso papel, como outsiders, é fundamental.

    E a gente não pode ter medo. Eu acho que você trouxe uma perspectiva pra mim. O que faz do brasileiro, nós, como cultura de negócios, nos destacarmos mundo a fora. E aí eu quero ver o seu exemplo, mas eu acho que tem muito da criatividade, tem muito do se adaptar a terrenos mais complexos, por exemplo, o americano evita.

    A capacidade de se conectar também, né? A capacidade de se conectar, né? Então acho que essas são os soft skills que fazem com que a gente se destaque. Mas o que mais você acha, Lemos, que... Eu acho que a gente como brasileiro tem uma capacidade de resiliência e manejar terrenos adversos que é quase que único. Principalmente na nossa geração, a gente é mais ou menos todo mundo da mesma idade aqui.

    Fale por você. O que a gente... Continuo repetindo isso. O que já falaram 45 mais... Mas é o range. A quantidade de crises, a quantidade de coisas que a gente vê, como o país, né? Que as empresas, os executivos têm essa questão de flexibilidade, adaptabilidade, adaptabilidade muito desenvolvidas. Então acho que isso, para mim, é o que mais marca porque esse mundo louco que a gente está vivendo, a gente já viveu lá atrás.

    Então essa capacidade adaptativa que a gente tem, eu acho que é uma coisa que é muito valorizada, quase que não digo que é única, mas assim, é muito característico da gente como profissional brasileiro, essa capacidade de resiliência, de você fazer o recovery period de maneira rápida. Beber cair, levantar. Exatamente. Aproveitar, aproveitar, entregar.

    Porque isso entregar, entregar em terrenos adivés. Então para mim, isso é a grande diferenciação que o Executivo Brasileiro tem. E você concorda com tudo isso, Alex, numa visão mais do mundo dos negócios, de consultor? Tipo, qual é a virtude do brasileiro? É um super concordo. Eu vou usar um pouco da minha referência de quem lidou com times globais, muitas vezes, teve que ser um fitreão, ou fez viagens de negócio.

    A gente tem essa capacidade mesmo de conectar muito rápido, de ler, de ser mais resiliente. Eu não sei se é cultural do Brasil, eu não sei o que é, mas a gente tem um tempero que é diferente. Também acho. Tem uma coisa muito louca também, que às vezes não sei se aconteceu com vocês, mas comigo, como eu nunca vivi uma cultura morando no lugar, você não consegue entrar na profundidade da nuance da língua que você fala.

    Claro, eu falo inglês, falo um porto em ódio sem vergonha, mas às vezes a nuance da língua faz uma diferença brutal. Cara, faz. Porque você perde algumas coisas, mesmo que você fale um bom inglês, um bom idioma onde você está morando, você perde algumas coisas. A gente usou alguns exemplos aqui. E essa capacidade de tirar sarro disso, cria conexão com os times globais.

    Eu usei muito disso. Muito bom, Leque, muito bom. Porque essa é uma verdade absoluta. Recurso de retório, cara. Recurso de retório, total. Bom, Limos, a gente tem um quadro aqui para finalizar, onde a gente abre a porterinha ali e traz o bode para a mesa. A porterinha da mesa é trazer uma reflexão, um questionamento para dar uma chacoalhada, e para dar uma pimentada.

    Então, eu vou abrir aqui para a mesa, que história, o que mensagem que vocês querem passar aí, para a gente chamar os bodezinhos para a mesa. Não adianto olhar para cá, estou olhando para cá, fintindo demência. Às vezes é melhor começar, porque você já gasta uma ficha, que às vezes o cara está pensando do lado, é o mesmo bode que eu, acontece isso às vezes.

    Então, eu posso falar de um lugar, como no Fisicaíno Internacional, eu acho que tem muita romantização na Caíra Internacional. Muita coisa que a gente romantiza, e vai ter um momento duro mesmo, quando você vira, acho que quando você muda, quando você está levando a família, você deu exemplo da sua filha, tirou a primeira foto na escola, estava ali embotada, porque ela não sabia o que esperava, mas depois viraram cidadãos do mundo.

    Então, eu acho que precisamos parar de romantizar. É bacana, mas tem um lado romântico que você se preparar, certo? Eu vou construir, vou chamar de novo, eu não é o primeiro, é o irmão do seu bode. Para mim, é o seguinte, a gente tem uma visão da Caíra Internacional, que é como se fosse turismo, viajar internacionalmente.

    Eu vou morar nos Estados Unidos, vou morar na Espanha, vou morar em Portugal, vou morar no Chile, você vai viver, você não vai morar, então você vai viver. E o viver, cara, ele traz uma série de complexidades, no caso da família, e no caso de uma pessoa só. É uma decisão complexa, não é um ative, uma conquista importante na carreira de todo mundo, mas você não precisa, necessariamente, de uma carreira internacional para ter uma carreira bem sucedida.

    Então fica essa reflexão, porque hoje nós trabalhamos com os times globais, muito que a gente teve de troca, hoje acontece com muito mais frequência. E antigamente, você não tinha tanto contato. Então, essa é meu bodezinho na sala. Eu tenho dois. Multiplicou, hein? Um eu tenho bode real de quem fala mal do Brasil, principalmente brasileiros e brasileiras.

    Isso é uma miopia absurda. É horrível. Temos problemas como todos os países, e eu garanto que é problema para um caralho fora também. Veja os pontos positivos, porque isso é o que vai te trazer coisas boas. Segundo ponto, não subestime a volta. A volta também é difícil. Oh, por favor, botou dois bodes gigantes. Não, e ela rematou com o fim.

    Pô, mantou meu bode. É, mas tu é seu bode, né? Desculpa. Eu vou construir com você, vai construir com a sua história. Desculpa. O bode do Leimavê eu mancando, assim. Não, não, não. Eu vou pedir uma licença poética aqui. Eu vou tirar esses quatro bodes da sala. Eu acho que realmente passa tudo isso. Foi difícil minha volta.

    Tem até um meme que eu vi que é assim, voltando para o Brasil. Não sei se vocês viram. Parece o cara chegando, olhando, né? Cara, acordando de banho, ele abre a janela, parece um barulho de moto. De moto. A CGzinhas. CGzinhas, gritando. Barulho de moto. O busão. De busão. Barulho de galinha. O cara vai começando a perder a magia, né?

    Então, assim, realmente, tem essa preocupação. Mas a segunda é assim, cuidado para você não adotar os bodes. Porque o que acontece também é o seguinte, é muito fácil, um momento de fragilidade que vai vir. Vai vir, vai, vai. Vai vir um momento de fragilidade. Basta estar vivo, né? Basta estar vivo, né? É assim, um resultado que não foi bom na organização, o filho que volta chorando da escola, a mulher que fica abodeada com alguma coisa, vai acontecer.

    Então, você se conectar com o teu propósito nesse momento, que é assim, po, eu estou aqui com a missão, vou fazer dessa missão, algo muito prazeroso. Tem isso como... É mantra, né? Vamos ver uns momentos difíceis, mas... A gente vai viver, né? Vai passar tudo isso, né? Então, acho que isso é muito bacana. Eu tenho um episódio, talvez tenha uma surmundância mais complexa que eu vivi, né?

    Eu vi sair da Colômbia para o México. Meus filhos eram adolescentes, né? E engraçados com as pessoas, são diferentes. E reagem de maneira diferente também, né? Minha filha ficou chorando quatro meses, do dia que eu comentei, até o dia que a gente foi embora. E meu filho ligou o botão do foda-se. E eu falei, cara, não é comigo.

    Não é comigo. Faltar uma semana pra gente mudar o quarto dele estava intacto. E ele teve um problema, teve um paralisio. Ele teve a paralisia de Bel, né? Que você fica com o lado da cara, a dos mentes, né? E a leitura que a gente teve foi que lá foi medo. Porque o medo paralisa. Você falou de paralisar, né? O medo paralisa.

    E eu tive um momento de muita conexão com ele, que eu comentei com ele. Eu falei, tá indo pro México, né? Eu falei, João, cara, você precisa falar das coisas, porque eu também tô com medo. A gente tá indo para outra empresa, eu tava na época que eu tava saindo da Natura pra Vom, né? Muita empresa, outra cultura, mas é a gente, né?

    Somos nós quatro de novo. Conta comigo. Então, quando você desmistifica isso também e traz sua fragilidade, a fragilidade conecta. Viva intensamente, sabe como vim momentos difíceis e se cuida. Isso é importante. Show, hein? Tô bom. Então, assim, a gente conclui mais um episódio, Lemons, foi fantástico ter você aqui. Obrigado, Lemons.

    Foi incrível. Muito obrigada. Esse foi mais um episódio do Afirma. Se você gostou da conversa, segue o canal no seu tocador predileto, comenta, compartilha, senta o dedo no botão do like e fique ligado nos próximos episódios. O Afirma é uma produção do Estúdio 1338, a direção geral do Maurício de Paula, trabalhos técnicos Camila Guiar e Diego Notar-Nicola.

    Até o próximo episódio. Até mais, pessoal. Até o próximo episódio, pessoal.

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